Se existiam dúvidas de que Vagos tem pessoas aventureiras e exploradoras, essas dúvidas ficam já dissipadas por Raquel Oliveira. Viajar e conhecer novas culturas no mundo preenche-a e enriquece-a de tal forma que se tornou o seu estilo de vida. Uma descoberta que Raquel Oliveira percebe quando vai trabalhar para Singapura no auge dos seus 22 anos. Não tem conta dos países que já visitou, ainda assim, enumerou 20 lugares e países de eleição.
Animada, começa por avisar que o seu português já não está treinado e alertou-nos que podia ter dificuldade em encontrar algumas palavras por falar e trabalhar sempre em inglês.
Quem é a Raquel Oliveira?
Sou a Raquel Oliveira, tenho 31 anos e sou de Parada de cima.
Estudei sempre em Vagos mas, aos 18 anos, fui para Lisboa para a universidade, tirar o curso de terapia da fala. Já nessa altura, escolhi ir para longe, para estar longe dos pais e da zona. Foi aí que reparei na diversidade de pessoas e da cultura. Depois de 4 anos do curso, comecei logo a trabalhar em Lisboa, porque não queria voltar para a terra e ajudar os meus pais que trabalhavam na agricultura. Nessa altura também era difícil arranjar trabalho em Portugal na área que estudei. Comecei a trabalhar para a empresa portuguesa Sacoor (marca de vestuário) enquanto tirava uma pós-graduação. Acabei os estudos e percebi que na minha área, o trabalho era precário e o ordenado não chegava para pagar contas. Continuei na loja de roupa e passado algum tempo sugeriram-me ir para Singapura, abrir uma loja. Ofereciam formação e alojamento. Havia outros países, mas achei que a nível de segurança, Singapura era o melhor país para me lançar ao mundo.
Fui para uma comunidade portuguesa, vivia com a costureira, com o supervisor. A equipa toda de trabalho vivia na mesma casa.
Já tinhas esse à vontade para ir para fora?
Na realidade, nem falava inglês. O que também me ajudou na altura foi ter acabado um relacionamento. Não queria ficar em Parada de Cima e queria mudar de vida. O objetivo era arranjar dinheiro para depois abrir a minha clínica aqui em Portugal.
Essa oportunidade surgiu quanto tempo depois de começares a trabalhar?
Foi passado um ano e meio, tinha 22 anos, e foi em 2012. Eu tinha as condições para concorrer a essa oportunidade. Além disso, aceitava qualquer projeto, horas extras…
Como foi quando lá chegaste?
Não foi fácil. Apenas um pessoa falava português. Quanto à língua, tive de me desenrascar, ou desenhava ou usava o Google tradutor. Também tive de compreender a cultura deles. É completamento diferente a nível de trabalho.
Quais são as diferenças na forma de trabalhar?
Em Portugal, como temos algum nível de desemprego, as pessoas trabalham onde há trabalho e se lhes pedem para fazer algo, nós fazemos. Em Singapura, o emprego é maior que a população, ou seja, a forma como tínhamos de pedir para fazer uma tarefa tinha que ser com muito cuidado e educação “Por favor, importas-te de fazer isto?”. Tive de mudar totalmente a forma como era e como geria a equipa em Singapura. Lembro-me que às vezes, os colaboradores faltavam ao trabalho e eu é que tinha de trabalhar 16//17 horas por dia, ou muitos dias seguidos. Faltavam ao trabalho por qualquer motivo, por dor de cabeça, ou simplesmente porque não lhes apetecia. Tive de ter alguns meses de adaptação, ia aprendendo com os meus erros e saber lidar com as situações em Singapura.
Como partes dessa primeira experiência para ir conhecer o resto do mundo?
Nós não tínhamos muitas folgas, mas quando havia possibilidade, mesmo que fossem 2 dias, íamos passear. O salário também era bom, cerca de cinco vezes mais que o salário português e com pouco dinheiro, conseguia ir às Filipinas, à Malásia, à Indonésia. Esses países ficavam a cerca de uma hora de distância, e ficava mais caro ficar em Singapura do que ir de carro ou de barco para outros países.
Ias sozinha ou acompanhada?
Singapura é muito pequeno, quase do tamanho da cidade do Porto. Portanto, toda a gente se conhece e frequentam os mesmos locais. Acabava por conhecer outras pessoas e arranjava companhia para viajar. Ou então ia sozinha, porque também gosto muito.
E era fácil viajar nesses países sozinha, sendo mulher?
Sim, vou contar-vos uma história da minha primeira viagem sozinha: Queria muito ir ao Camboja, é uma viagem que recomendo a nível da cultura, da diferença e do choque cultural e também pelos monumentos e pelas paisagens. Diziam-me que era complicado ir viajar sozinha para países como esses, porque há muito tráfico de crianças, de mulheres, pedofilia, etc. Mas eu queria mesmo ir explorar o país e a cidade de Siem Reap. Lembro-me que estava no avião, para seguir para lá e comecei à conversa com um senhor a pedir recomendações. Nisto, descobri que não estava a ir para Siem Reap, e estava a ir para a capital do Cambodja, Phnom Penh. Entrei em pânico, por saber que ia para uma cidade onde não conhecia nada, não tinha reservado alojamento, nem tinha telemóvel para ligar. O senhor é que me ajudou a cancelar o outro hotel e arranjar um novo.
Quando cheguei à cidade, foi um choque: toda a gente se deslocava de scooter, não havia semáforos nem sinalizações. Passeei por Phnom Penh, mas passado 2 dias, já tinha conhecido tudo e continuava com a vontade de ir a Siem Reap. Apanhei o autocarro, porque era a opção mais barata e fui, deixando a maior parte das coisas no Camboja. Acabei por fazer várias amizades nesse autocarro, principalmente com viajantes que também estavam sozinhos. Passados dois dias, voltei à capital. É uma das viagens que relembro com mais carinho, as pessoas foram super atenciosas, simpáticas e ofereciam-se para nos levar a sítios para não ir sozinha.
Quanto tempo ficaste em Singapura a trabalhar?
Fiquei quatro anos. Enquanto lá estive, fui muitas vezes a Bali, à Malásia e a muitas ilhas, a Batam Island, na Indonésia, às Phi Phi island, à Tailândia, a Banguecoque, que adorei, é uma cidade com muita pobreza e muita riqueza também. Nesta viagem, fui conhecer os dois lados porque achei importante perceber as diferenças dos níveis de vida. Os pobres são muito amigáveis. O meu objetivo era viajar uma vez por mês. É o meu estilo e objetivo de vida. Adoro conhecer outros países, explorar os valores e a cultura. Em qualquer país que conhecia na Ásia, de Portugal só conheciam o CR7, o que me deixava chateada. Há pessoas que mereciam também o reconhecimento.
Que outros países visitaste?
Fui ao Vietname também e a um país que não é muito falado que é as Filipinas. As praias das Filipinas são…. (momento em que Raquel não encontrava palavras em português para descrever) Overwhelming! [Arrebatadoras]. São incríveis para fazer kayak, mergulho e snorkeling. Nas Filipinas, as pessoas também são muito acolhedoras
E experiências que viveste nessas viagens?
São muitas, mas a mais assustadora foi quando caí de parasailing (atividade de diversão aquática).
Foi assim: fui com uma amiga portuguesa, estávamos em Langkawi, na Malásia e estávamos interessadas em fazer desportos aquáticos. A primeira atividade era parasailing e levaram-nos para uma ilha selvagem para levantar voo. Quando fui para aterrar, o balão perdeu ar e caí em seco. Na queda, o instrutor que estava atrás de mim, foi com o pé contra o meu joelho, que recebeu o impacto todo. Rasgou completamente quando caí. A empresa de diversão fugiu porque não tinham seguro, e deixaram-nos nessa mini ilha. A minha amiga lá encontrou um senhor que estava responsável pelo equipamento e nos ajudou. Foi uma experiência muito difícil na altura porque não tinha seguro de saúde, nem de viagem - Era jovem e não pensava nas consequências - os hospitais são como o centro de saúde da Parada de Cima (risos), não tinham anestesia e além disso são muçulmanos e a preocupação deles era tapar-me porque só estava de fato de banho. Só me deram um documento, para eu assinar que dizia que não era da responsabilidade deles, caso perdesse a perna ou morresse ali.
Como te sentiste nesse momento?
O pior era o médico de família. Que quando vinha ter comigo dizia: “Eu não sei como hei-de fechar o rasgo”, na língua da Malásia. A solução seria ou deixar que o médico tentasse fechar o joelho, esperar pelo cirurgião que vinha no dia seguinte ou ir até Singapura de helicóptero. Em pânico, decidi que era o médico quem ia tratar, e costuraram por dentro e por fora, sem anestesia. Para acrescentar, só usavam algodão e iodo, depois da minha colega ir pagar à sala ao lado. Eu não parava de gritar. No dia seguinte, apanhei o avião para Singapura, fui logo para o hospital e sugeriram ficar no hospital para ir controlando, mas era mais de 1000 euros por dia e não tinha essa possibilidade. Ou então, corria o risco de ir fazendo a limpeza em casa, e gelo todos dias. Tive um mês e meio sem me mexer, mas recuperei e fiquei sem consequências. Primeiras recomendações que dou a quem viajar: SEGURO DE VIAGEM!
Continuaste em Singapura?
Sim. Passado um ano saí da Sacoor e fui para uma empresa de produtos de luxo – Richemont - como gerente de loja. Passados quatro anos (ainda em Singapura), soube que o meu pai estava doente e pouco depois aconteceram os incêndios de outubro de 2017. Quando aconteceu isso, dei-me conta que não valeria a pena estar tão longe da família. Os meus pais, tiveram de sair de casa, perderam as estufas e só soube disso um dia e meio depois por causa da diferença horária. Decidi então voltar para a Europa, depois de a minha empresa me ter oferecido uma oportunidade para dar formação em Londres. Fui com o meu marido que também é de Inglaterra.
Como foi a transição de Singapura para Londres?
Não foi fácil, foi muito mais difícil que em Singapura.
Porquê?
Em Singapura, era como uma família internacional. Tinha amigos de todos os países e todos na mesma situação: a trabalhar fora do seu país de origem. Aqui em Londres, não conhecia ninguém. É uma cidade gigante, o que se torna difícil fazer amigos e ninguém se conhece. O inglês também é diferente do que nós estamos habituados a ouvir nos filmes. Aqui comecei logo a viajar, fui várias vezes a Veneza, Florença, Roma, França.
Continuas a dar formação?
Sim, entretanto tirei uma formação em recursos humanos e recentemente fui promovida na empresa. Em trabalho, vou muitas vezes à Suíça e a partir de agora o objetivo é ir dar formação noutros países.
E onde ficou a Terapia da Fala e o objetivo inicial de abrir uma clínica em Portugal?
Fica a nível pessoal porque o que aprendemos, não esquecemos. Mas o facto de dar formação em recursos humanos e o facto de ajudar alia-se ao curso que tirei. É um objetivo estagnado, mas nunca sabe o dia de amanha.
A Raquel de 12 anos, pensava fazer todas estas viagens?
Não, pensava que ficaria na Parada de Cima. Nunca pensei em viajar. Acho que em Portugal, por termos um país tão lindo, as pessoas não sentem necessidade de ir lá fora.
Ainda existe algum destino de sonho que queiras ir?
Sim! Já cancelei o voo do meu destino de sonho 4 vezes e é o Japão. Já tenho a viagem toda programada. Quero fazer a escalada do monte Fuji, duas semanas em modo backpack [mochila às costas]. Mas também já cumpri muitas viagens de sonho. Um delas foi um safari de jipe entre Senegal e o Quénia, quando fui a Tanzânia e Zanzibar. Foi uma experiência surpreendente.
Conheces muito o mundo. O que significa Vagos para ti?
Sempre que aí vou, faço roadtrips por Portugal inteiro: pelo Gerês, pelo Douro, Sesimbra… e Vagos é um sítio que está no coração. É o lugar onde vou ao Museu do Brincar com a minha sobrinha, é onde eu vou ao Metal Fest com os meus primos, e tomar café aos bares, onde corro e passeios nos passadiços na Praia da Vagueira.
Como é que as pessoas podem acompanhar as tuas viagens?
Qualquer pessoa pode enviar-me convite para o Instagram (rede social) Acho que ter a oportunidade de viajar é um privilégio, por isso procuro mostrar as minhas viagens na rede social. Lá estão todas as minhas recomendações, roadtrips, e lugares onde estive.
| 20 anos e 20 viagens | |
| Serengeti Parque Nacional | Tanzânia |
| Siem Riep | Camboja |
| Boracay | Filipinas |
| Singapura | |
| Hong Kong | China |
| Jrabi e Phi Phi | Tailândia |
| Bali e Ubud | Indonésia |
| Marraquexe | Marrocos |
| Ilha Zanzibar | Tanzânia |
| Ilha Langkawi e Ilha Tioman | Malásia |
| Açores e Costa Vicentina | Portugal |
| Veneza, Florença e Milão | Itália |
| Londres, Costa Jurássica e Dorset | Inglaterra |
| Escócia | |
| Irlanda | |
| Amesterdão | Holanda |
| Paris e Cognac | França |
| Suiça | |
| Espanha |