Se é de amor que mais se fala em fevereiro, é amor que vamos dar ao leitor. Cidalina viveu um romance por cartas, “casou” com o pai do homem que viria a ser seu marido e, por ele, atravessou o atlântico para provar finalmente o “fruto proibido”. E que bem apetecido fora este fruto com os 60 anos lado a lado a comprovarem o velho ditado. Cidalina e Teófilo protagonizam das histórias de amor mais incomuns à época em Ouca – Um casamento feito por procuração.
Venezuela, anos 50
Teófilo da Conceição era ainda moço quando decidiu emigrar para a Venezuela, iniciando a sua vida profissional de emigrante na construção, labuta que já conhecia da criancice em Portugal. O calor a que estava exposto, todos os dias, fizeram-no desanimar e procurar novo emprego. Acabou por parar num “arepeiro”, um restaurante onde se confecionavam e vendiam arepas, a famosa iguaria venezuelana. É a partir daí que a história começa a ganhar rumo quando o negócio é comprado por 2 homens que quiseram que Teófilo fizesse parte da sociedade. “E tornei-me sócio do estabelecimento com os outros dois. Eram 2 negócios, a arepeira e um negócio de produtos alimentares que lhes pertencia também. Passado uns tempos, um dos sócios foi embora e fiquei eu mais outro, o Quim” O negócio corria de vento em popa. Não bastasse a saudade dos sócios ser lusa, a confiança ia crescendo. “Um dia, vi uma foto do meu sócio.. era de um batizado que tinha acontecido em Portugal e mal olhei, apontei e disse “Elá, esta sardinha é boa. Quem é esta rapariga?”
Oliveira do Bairro, anos 50
Cidalina Neves, ou apenas Lina, era o nome da jovem que despertou a atenção de Teófilo. Interrompe o marido e continua ela a contar a história. Era em Oliveira do Bairro, no lugar de Silveiro que, ao mesmo tempo que Teófilo trabalhava com o sócio, irmão dela, aproveitava a sua mocidade. “Eu não era namoradeira, gostava de ir aos bailaricos e divertir-me com as minhas colegas, mas chegava ao pé deles e despachava-os logo” começa por contar. Por sua vez, a vergonha que sentia começou a ser testada no dia em que a sua mãe lhe disse ”Oh Cidalina, olha que o sócio do teu irmão vai escrever-te” e questionei “então mas eu conheço o rapaz de algum lado? Ele que não escreva nada, porque eu não vou responder!” Demorou 2 semanas até chegar.
A carta indesejada escondia um pedido
“Na primeira carta, depois de se apresentar, pediu-me logo em namoro” continua Cidalina. “Fui à minha mãe e ela disse-me “não me meto, nem afronto, mas uma carta tem de ter resposta”. Indecisa e apreensiva, Cidalina recorre aos melhores informadores que tinha no momento, o irmão dela. “Uma pessoa boa e trabalhadora” respondera-lhe Quim acerca do colega.
Decidiu, enfim responder a Teófilo e nesta troca de cartas e fotografias continuaram cerca de 1 ano, até arranjarem toda a documentação para o casamento acontecer em Portugal. Na Venezuela, Teófilo contava os dias para receber a futura mulher, que viera já casada pela mão do pai. “Casámos em Oiã, pela igreja e correu tudo bem. Troquei as alianças com o meu sogro que foi quem fez a vez do Teófilo”.
A chegada
Ainda se lembra do nome do navio cujo embarcou - o Santa Maria - e dos infindáveis 13 dias que passou com borboletas na barriga. “Quando lá chegámos, era de manhã e a minha cunhada espreitou pelo postigo do barco e diz “Lina já estou a ver o teu pai - que também trabalhava na Venezuela - e também já estou a ver o Quim – irmão de Cidalina - e o que está ao lado, deve ser o Teófilo”. Nisto, eu estava a comer uma laranja e larguei-a logo para o lado que nem a consegui acabar de comer” Tal eram os nervos, que foram das últimas a sair do navio, arrastadas pela tripulação do barco que estavam responsáveis pela limpeza dos camarotes. “E lá teve de ser.. lá tive de sair do barco, muito envergonhada” e, com um aviso prévio que Teófilo lhe escrevera, para a preparar.
E como foi a primeira vez que se viram? Perguntámos, ao que Teófilo explicou “Aquilo estava tudo destinado, havia lá muita gente da família da Cidalina que também estava lá na Venezuela e foram nesse dia ao cais para apreciar o nosso encontro. Mas antes, por carta, disse-lhe como se de uma promessa se tratasse – “Olha tu chegas lá, dás-me um beijinho na boca, um abraço e o resto a gente faz... Está lá muita gente e não é preciso fazer espetáculo”. E Cidalina não conseguiu fugir ao prometido nem à “Noite de São João” que se seguiu após a festa de receção que marido preparou para ela.
Juntos, no amor e na labuta
O destino quis que o casal continuasse por mais uns tempos na Venezuela, com o mesmo negócio. Os bons lucros compensavam o pouco descanso que tinham, nesta terra onde fazer riqueza parecia fácil aos olhos de quem foi e voltou. “ Assim que vi que tinha nota para fazer uma casa em Portugal, pedi um orçamento e mandei fazer a casa” comprova Teófilo. De regresso a Portugal e já com casa preparada, burocracias do país onde estiveram emigrados fizeram-nos voltar por mais 2 anos, desta vez, envolvidos num negócio de pneus. “Depois viemos outra vez para Portugal, fizemos o negócio do minimercado Ouquense – o antigo – e tínhamos também um negócio de venda de adubos e rações em casa” recorda Cidalina.
Definitivamente em Portugal, estabelecidos em Ouca, Teófilo e Cidalina escolheram viver os anos que lhe restam no lar da terra, onde se sentem mais seguros e confortáveis. Na casa dos oitenta e a completar as Bodas de Diamante, Teófilo termina com a certeza de que “Foi e está a ser um casamento muito feliz”. Já Cidalina diz que embora com algumas chatices, “passado pouco tempo já estávamos novamente bem.. Não guardámos para sempre”. Isso, e com outras peripécias pelo meio, o marido continua a cuidar da verdadeira riqueza que a Venezuela lhe deu – o coração de Cidalina – “Se eu não cuidasse dela, já ela tinha ido para os anjinhos”