Vaguenses pelo Mundo

Do quintal dos avós para vinhas na Austrália

Vagos
Vagos

Partilhar:

Quando Vagos desperta e abre a pestana, já Joel Santos está a terminar mais um dia de trabalho. Na Austrália, do outro lado do mundo, o jovem natural de Fonte de Angeão é o responsável pela produção de milhões de garrafas de vinho na Tim Adams Wines. Um percurso que nunca imaginou percorrer nos primeiros anos de vida mas que desenvolve, em Clare Valley, sem largar o sonho de um dia regressar a Portugal e para o “vinho” que o viu nascer.


Quem é o Joel Santos?

Sou natural de Fonte de Angeão, tenho grande parte da família lá e grande parte da minha formação foi feita aqui por Aveiro. No Colégio de Calvão e depois em Aveiro onde me formei em Biotecnologia. Tirei mestrado em Biotecnologia industrial e foi aí que comecei a divergir completamente para a área dos vinhos. A minha tese de mestrado foi relacionada com o estudo de fermentação de espumantes na Proenol (empresa de produtos enológicos), em Vila Nova de Gaia. Entretanto, fiz estágio na Aliança, em Sangalhos… fui pela primeira vez à Austrália e foi aí que começou a aventura.


Como surgiu essa oportunidade na Austrália?

No mundo dos vinhos é muito fácil termos trabalho fora ou ganhar experiência num estágio de 2 ou 3 meses que é a altura das vindimas. É mesmo muito fácil, se eu quiser ir trabalhar 2 ou 3 meses em países que estão agora a produzir vinho. Nunca tive intenções de ir para a Austrália mas por 2 ou 3 meses… vamos experimentar. Entretanto, a empresa onde estive ofereceu-me um contrato de trabalho e o resto é história. 


Antes de tudo, em que ponto da vida é que nasce essa paixão pelo vinho?

Paixão… eu não tenho historial na minha família. Os meus avós sempre produziram mas era para consumo em casa e dava para uma festa familiar mas nunca foi uma paixão minha. Foi algo que foi crescendo quando tive oportunidade de trabalhar na área. Acho que começou por apreciar um copo de vinho mas mais pela produção… se eu for pela direita tenho este resultado, se for pela esquerda tenho outro resultado.


E a Biotecnologia ajudou?

A produção de vinho em si é um dos exemplos clássicos de aplicação de biotecnologia porque utilizas todo o tipo de leveduras, bactérias, todo o tipo de compostos produzidos pela biotecnologia. A fermentação de vinhos, por leveduras, é biotecnologia. 


Começou a olhar para um copo de vinho e a desconstruir…

Exatamente. No meu caso foi vinho mas noutros casos pode ser um carro [risos] Foi um pouco por aí. E não tendo um início com formação base em enologia, depois talvez tenha tido um bocado de sorte com as pessoas com que me cruzei. E depois é a questão de começares a perceber que há diferenças entre um vinho do Dão, um do Alentejo, um Bairrada… quando começas a perceber as diferenças e a ter interesse, não há volta atrás.


Voltando ao percurso realizado. Onde é que iniciou definitivamente? 

Em Vila Nova de Gaia já estive um pouco envolvido na produção. Ao nível da indústria comecei na Aliança, depois fui à Austrália e estive no Alentejo. Foi tudo estágios de vindima. Na Aliança estava a fazer trabalho de laboratório com análises de vinhos. Na Austrália já era uma empresa maior e já misturava produção com laboratório. No Alentejo estive na Herdade da Malhadinha Nova onde foi mesmo mais virado para a produção.


E depois surgiu o convite para regressar à Austrália? 

Quando saí da Austrália já ficou mais ou menos tratado que ia voltar. Quando tinha 26 anos, fui de vez.


E a China?

Foi um projeto em que estive envolvido enquanto já estava na Austrália a tempo inteiro. Foi um projeto de dois anos mas apenas ia lá duas ou três vezes por ano e regressava. Estive num concurso internacional de enólogos que a região mais famosa da China organizou. O que é que eles fazem? Fomos 48 enólogos de vários lugares do mundo e a ideia era trazer conhecimento à região porque nós estávamos espalhados por adegas. Eu estava numa adega sozinho, os outros estavam noutras adegas… a ideia era que nós fizéssemos vinho e que, de certa forma, ajudássemos quem lá estava a formar-se. Não era obrigatório mas tínhamos de trabalhar com os locais. Começou em 2015, passei lá quatro semanas, e regressei no ano seguinte para ver como estava o vinho e tomar as decisões iniciais.


Como é o seu trabalho na Tim Adams?

Na mesma região, temos dois centros de processamento de uva. Eu estou responsável por uma delas, acompanho a época das vindimas e sou o responsável de enologia, ou seja, tudo desde que a uva entra na adega até engarrafarmos o vinho. Desde o processamento da uva, a provas, a fazer lotes para engarrafar, a colocar em barricas, ao engarrafamento… Desde o fazer até ao engarrafar, faço um pouco de tudo. Muito semelhante ao que se faz aqui.


Esse processo é similar seja na Austrália ou em Portugal?

É muito semelhante. Recebes a uva, processas a uva e fazes vinho. Os meus avós faziam vinho e não tinham conhecimento de enologia, por exemplo. Claro que depois há algumas diferenças como as castas, nós não temos Arinto, Touriga Nacional ou Fernão Pires. Temos Syrah, Cabernet Sauvignon, Riesling… castas internacionais, diferentes do que temos aqui. Ao nível do processo, as coisas já não são muito diferentes. O que noto é que é tudo muito mais automatizado, há menos pessoas. Ninguém pisa a uva com o pé. Não [risos] é quase só carregar no botão e ir embora. Se calhar essa é a grande diferença. 


Quantas garrafas produzem?

Este ano, por exemplo, processámos cerca de 2.500 toneladas de uva que deram, mais ou menos, 2 milhões de litros. Dá para 2.5 milhões de garrafas. Mas há anos em que há mais, outros menos…


Qual foi o melhor vinho que já produziu?

A minha casta preferida de brancos é Riesling e 2021 foi um ano fantástico para nós. Se calhar foi o ano, desde que estou lá, de maior qualidade. Dá gosto fazer um vinho em que tudo corre bem, desde que as vinhas começam a brotar até ao engarrafamento… dá gosto. Mas 2018 também foi um ano fantástico para vinhos tintos e o nosso topo de gama que é um Syrah pode ser o de maior qualidade desde que estou lá.


O que é que ainda lhe falta fazer no mundo dos vinhos?

Sonhos não sei se tenho mas tenho uma lista de coisas que gostava de fazer em breve. Gostava muito de trabalhar em Portugal porque tive a minha formação toda cá, comecei cá e nunca tive oportunidade disso. Nunca consegui assumir um projeto de enologia do início ao fim, cá. E também gostava de regressar ao país porque a Austrália não é aqui ao lado. E a nível profissional, Portugal faz dos melhores vinhos do mundo, por isso, seria ótimo. Ao nível de formação, gostava de fazer um dia a formação de Master of Wine que é o máximo que se pode atingir na área. Gostava de experimentar, de estudar, de tentar ser. Só para terem uma ideia, é um curso nos anos 60 ou 70 e só 400 pessoas conseguiram passar o exame desde essa altura - e ainda não há nenhum português. É uma tarefa quase impossível mas gostava de sentir na pele essa tentativa. 


E abrir um projeto seu?

Não sei. Um projeto pessoal na área dos vinhos é muito arriscado porque há muito vinho no mercado e para ser mais um… Vamos ver o que o futuro traz. 

Ler Mais

Galeria de imagens

Joel Santos Vinhos (1)_.jpg