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Nuno Margarido - Jornalista e colaborador

Ed Bambas. Ouviu falar neste nome? No início do mês o mundo ficou a conhecer a história de um idoso de 88 anos, veterano de guerra e residente em Detroit, nos Estados Unidos da América, que trabalhava cinco dias por semana, oito horas por dia, para ter algum dinheiro para viver. A vida foi-lhe madrasta. Perdeu a pensão para a qual trabalhou uma vida inteira com a falência da General Motors e o que recebeu do acordo com a empresa para a qual trabalhou 40 anos também se esfumou rapidamente com a doença da esposa. Viu-se obrigado a vender tudo o que arrecadou em vida para pagar as despesas médicas. A mulher, faleceu. E, no início dos seus 80 anos, viu-se obrigado a regressar ao trabalho, num supermercado daquela cidade. 

Até ao dia em que um influencer australiano chamado Sam Weidenhofer reparou no velho Ed. Quis conhecer-lhe a história. Saber porque uma figura tão idosa ainda estava ali, num supermercado, a trabalhar. A história comoveu meio mundo. Lançou-se uma campanha de angariação de fundos e, uma semana depois, o Ed recebeu quase 2 milhões de euros para poder reformar-se à vontade. Para aproveitar a vida. Ou pelo menos para viver o resto dos seus dias com alguma dignidade.

Ora, eu não estou aqui para pôr em causa a veracidade da história. Vejam o vídeo que mobilizou milhares às doações e tirem as vossas próprias conclusões. Diga-se que o vídeo acabou por surgir na altura ideal, quando a Natividade se aproxima e o coração amolece. Há melhor altura para pedir algum tipo de dádiva aos outros do que a altura do Natal? Claro que não! É possível que muitas campanhas destas também se concretizem em burlas. Mas, enfim, as ações ficam com quem as pratica e todos os que tentam ajudar o outro – com muito ou pouco conhecimento da concretização real da ajuda – devem ser celebrados.

Até porque nem é preciso atravessar o Atlântico para lidarmos com casos em que apetece chamar nomes à vida. Recentemente também ficámos a conhecer a história da Ângela Pereira, de 23 anos, que lançou um apelo nas redes sociais à procura de ajuda na luta contra um cancro. Nada de ajuda financeira, esclareceu. Mas ajuda médica que pode existir por esse país fora, numa altura em que tanto médicos como a própria desanimam perante os tratamentos que se revelam ineficazes. “Nada me levaria a fazer esta publicação, senão o desespero e o medo da morte”, desabafou.

Decerto que, caro leitor, encontrará situações similares em geografias mais próximas. Quem sabe até dentro de casa. Sim, a vida consegue pregar-nos muitas partidas e tem um jeito particular para ser inconveniente. Lamento que este texto não lhe traga um imediato sorriso à face, com a exposição de duas situações que nos apertam o âmago do ser. Surge aqui, no fundo, como uma espécie de desafio, numa época em que a nossa carga mental é tantas vezes ocupada pela necessidade de comprar esta ou aquela prenda, de suprir esta ou aquela necessidade para tão bem receber nas festividades. 

Um simples desafio de nos voltarmos a recentrar no importante. Mais do que dar ou receber algo, receber bem ou ser bem recebido, importa o tempo para estar. O tempo para celebrarmos juntos, para nos sensibilizarmos com a vida e as necessidades do outro. Para despejar uma prenda, envio por correio. Para comer um doce, vou à pastelaria. Mas nada disto me garante a presença e o tempo que passei com o outro. A ouvir o outro. A perceber e a conhecer o outro. 

Porque como me responderam num círculo próximo onde partilhei a história do Ed… “Nuno, há imensas pessoas a passar mal”. Pois há. E nem todos querem ou precisam de ser conhecidos ou divulgados. Precisam simplesmente de ser ajudados. Haja a empatia como prenda.


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