Ângelo Valente - Colaborador Diretor Associação Extragenária
Tenho o privilégio, pelo meu trabalho na Associação Extragenária, de conhecer quase todos os dias pessoas novas. Algumas mais novas mas a maioria são pessoas muito mais velhas do que eu. E é nelas que, muitas vezes, melhor se percebe o estado da nossa sociedade. As pessoas mais velhas são memória viva. Já viram quase tudo. E é exatamente por isso que aquilo que sentem hoje merece ser escutado.
Penso muitas vezes na Dona Conceição.
A Dona Conceição já viveu transformações sociais profundas. Viveu uma ditadura, a chegada da liberdade, crises económicas, mudanças de moeda, revoluções industriais e tecnológicas. Em determinada altura da vida, procurou noutro país a vida que sentia não ter cá. Adaptou-se, voltou, recomeçou. Pelo caminho, enfrentou doenças que, felizmente, não a levaram embora. Ficou. E ficou com gratidão. Sempre com uma capacidade admirável de se ajustar ao mundo à sua volta.
É por isso que surpreende quando diz que nunca foi tão difícil como agora.
Não é a idade. Não é o corpo. É o tempo. Um tempo mais urgente, mais barulhento, mais definitivo. Um tempo que exige opiniões rápidas sobre tudo e deixa pouco espaço para a dúvida, para o silêncio ou para mudar de ideias. Um tempo que simplifica o mundo e o divide em lados opostos.
A Dona Conceição nunca foi uma mulher medrosa. Hoje, tem medos que nunca teve. Não porque algo concreto lhe tenha acontecido, mas porque todos os dias lhe dizem que deve ter medo. Do outro, do diferente, do que não conhece bem. Aos poucos, a liberdade foi encolhendo. Sai menos, confia menos, escuta com mais desconfiança. Aquilo que nela era abertura começou a dar lugar à defesa.
Vejo isto muitas vezes nas pessoas mais velhas com quem trabalho. Não vejo radicalismo. Vejo cansaço. Vejo pessoas que passaram uma vida inteira a adaptar-se e que agora sentem que o mundo já não lhes pede adaptação, pede alinhamento. Como se aceitar a complexidade fosse um luxo e não uma necessidade.
Aceitar os outros como são talvez seja um dos exercícios mais difíceis que existem. Mas aceitar-nos a nós próprios também. A liberdade começa aí. No reconhecimento de que somos feitos de histórias, dúvidas e contradições. Quando deixamos de aceitar isso em nós, deixamos facilmente de aceitar isso nos outros.
Conheço pessoas boas em todos os lugares. A diversidade de opiniões é uma riqueza. O verdadeiro risco começa quando deixamos de ver pessoas e passamos a ver apenas posições. Quando a dureza se normaliza e a humanidade passa a ser exceção.
Escrevo também como pai. Todos os dias penso no mundo que estou a ajudar a construir para os meus filhos. Desejo-lhes um mundo onde discordar não signifique afastamento. Onde aceitar o outro não seja visto como fraqueza. Onde a liberdade seja uma prática diária.
Neste Natal, talvez valha a pena aprender com a Dona Conceição. Ela, que já atravessou quase tudo, lembra-nos que a maior transformação não é política nem económica. É humana. E que aceitar o outro como ele é continua a ser uma das ferramentas mais eficazes para sermos mais livres e, quem sabe, um pouco mais felizes todos os dias.
Se há um presente que faz mesmo falta, é este.